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Resistência Antimicrobiana

A resistência antimicrobiana (RAM) é uma das ameaças globais mais prementes à saúde do século XXI, ameaçando reverter décadas de progresso médico e devolver a humanidade a uma era pré-antibiótica. A resistência surge quando os microrganismos desenvolvem mecanismos para sobreviver à exposição a medicamentos que anteriormente os matavam ou inibiam, impulsionada principalmente pela pressão selectiva da utilização de antimicrobianos em humanos, animais e agricultura.

O que é resistência antimicrobiana?

A RAM ocorre através de mutações genéticas espontâneas ou aquisição de genes de resistência através de transferência horizontal de genes. Os organismos resistentes espalham-se pelos ambientes de saúde, pelas comunidades e através das fronteiras através de viagens e comércio internacionais. Sem antimicrobianos eficazes, os procedimentos médicos de rotina, incluindo cirurgia, quimioterapia contra o cancro e transplante de órgãos, tornam-se empreendimentos de alto risco.

Mecanismos de Resistência

A inativação enzimática é uma importante estratégia de resistência. As beta-lactamases hidrolisam o anel beta-lactâmico das penicilinas, cefalosporinas e carbapenêmicos. As beta-lactamases de espectro estendido (ESBLs) inativam a maioria dos beta-lactâmicos, exceto os carbapenêmicos. Carbapenemases incluindo NDM (metalo-beta-lactamase de Nova Delhi) e KPC (Klebsiella pneumoniae carbapenemase) hidrolisam carbapenêmicos, muitas vezes deixando poucas opções de tratamento.

Modificação do alvo altera o local de ligação do medicamento. Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA) produz uma proteína alterada de ligação à penicilina com baixa afinidade por beta-lactâmicos. Enterococos resistentes à vancomicina (VRE) modificam o alvo D-alanil-D-alanina em D-alanil-D-lactato.

Bombas de efluxo expelem ativamente os antibióticos das células bacterianas antes que atinjam concentrações efetivas, reduzindo o acúmulo de medicamentos. Este mecanismo contribui para a resistência em múltiplas classes de medicamentos.

Permeabilidade reduzida limita a entrada do medicamento através de alterações nos canais de porinas nas membranas externas de bactérias gram-negativas, reduzindo o acesso de antibióticos a alvos intracelulares.

Principais patógenos resistentes

Os patógenos ESKAPE (Enterococcus faecium, Staphylococcus aureus, Klebsiella pneumoniae, Acinetobacter baumannii, Pseudomonas aeruginosa, espécies Enterobacter) representam as bactérias resistentes aos medicamentos mais problemáticas. Clostridioides difficile normalmente não é resistente, mas é promovido pela ruptura do microbioma induzida por antibióticos, levando a doenças diarreicas graves. A lista de agentes patogénicos prioritários da Organização Mundial de Saúde orienta a investigação e o desenvolvimento para as ameaças de resistência mais críticas.

Estratégias para combater a RAM

Programas de administração antimicrobiana otimizam o uso de antimicrobianos por meio de seleção, dosagem, duração e via de terapia apropriadas. As estratégias principais incluem auditoria prospectiva e feedback, restrição de formulários, implementação de diretrizes de tratamento e redução da escalada com base nos resultados da cultura.

Medidas de prevenção e controle de infecções, incluindo higiene das mãos, precauções de contato, limpeza ambiental e vacinação, reduzem a transmissão de organismos resistentes.

O desenvolvimento de novos medicamentos enfrenta desafios científicos e económicos. Novos agentes como ceftazidima-avibactam, ceftolozano-tazobactam e cefiderocol tratam algumas infecções por Gram-negativos resistentes a carbapenêmicos. No entanto, o pipeline de antibióticos continua insuficiente para enfrentar a evolução da resistência.

Diagnósticos rápidos permitem a identificação precoce de patógenos e a detecção de resistência, facilitando a terapia apropriada em tempo hábil e reduzindo o uso desnecessário de amplo espectro.

Principais considerações clínicas

Os padrões de resistência variam localmente, exigindo conhecimento da epidemiologia local. Os testes de cultura e suscetibilidade devem orientar a terapia sempre que possível. Cursos mais curtos de antibióticos minimizam a pressão seletiva. A terapia combinada pode reduzir o surgimento de resistência em determinados contextos. A educação do paciente sobre a conclusão dos cursos prescritos e a prevenção da automedicação é essencial.

Conclusão

A resistência antimicrobiana exige uma acção coordenada urgente nos sectores da saúde, da agricultura e das políticas. Preservar a eficácia dos antimicrobianos existentes através da gestão, prevenir a transmissão de infecções e investir no desenvolvimento de novos medicamentos e diagnósticos são componentes críticos da resposta global a esta crise crescente.