O manejo do envenenamento requer uma abordagem sistemática que priorize a estabilização das funções vitais, seguida de avaliação cuidadosa, descontaminação gastrointestinal quando indicada, eliminação aprimorada quando possível e cuidados de suporte apropriados. O envenenamento é uma emergência médica comum, responsável por mais de dois milhões de exposições relatadas anualmente somente nos Estados Unidos. Os princípios gerais do manejo de intoxicações aplicam-se a uma ampla gama de agentes tóxicos, com modificações específicas baseadas na substância específica envolvida, na via e no momento da exposição e na condição clínica do paciente.
Avaliação inicial e estabilização seguem a abordagem ABCDE com foco nas vias aéreas, respiração, circulação e incapacidade. O comprometimento das vias aéreas é uma das principais causas de morte em pacientes envenenados, particularmente aqueles com consciência deprimida por overdose de sedativos-hipnóticos ou opioides. A intubação endotraqueal pode ser necessária para proteger as vias aéreas e fornecer suporte ventilatório. A avaliação respiratória inclui oximetria de pulso, capnografia e gasometria arterial. A depressão respiratória é a principal causa de morte na overdose de opioides e benzodiazepínicos, e o suporte ventilatório imediato salva vidas. A avaliação da circulação concentra-se na frequência cardíaca, pressão arterial e perfusão, com atenção específica às disritmias que podem exigir terapia antiarrítmica ou cardioversão elétrica.
A descontaminação gastrointestinal visa reduzir a absorção dos venenos ingeridos. Carvão ativado é o método de descontaminação mais utilizado e é mais eficaz quando administrado dentro de uma hora após a ingestão. Ele adsorve uma ampla gama de medicamentos e toxinas no trato gastrointestinal, evitando a absorção sistêmica. A dose é normalmente de 50 a 100 gramas para adultos ou 1 grama por quilograma para crianças. O carvão não deve ser utilizado em pacientes com vias aéreas desprotegidas, íleo ou ingestão de corrosivos ou hidrocarbonetos. A lavagem gástrica raramente é indicada, mas pode ser considerada para ingestões com risco de vida realizadas dentro de 60 minutos após a exposição. A irrigação intestinal completa com solução de polietilenoglicol é usada para preparações de liberação sustentada ou com revestimento entérico, overdose de ferro e empacotadores corporais que ingeriram pacotes de drogas ilícitas.
Técnicas de eliminação aprimorada aumentam a remoção de toxinas já absorvidas. Carvão ativado em doses múltiplas (MDAC) aumenta a eliminação de medicamentos que sofrem recirculação entero-hepática ou que são secretados ativamente no trato gastrointestinal, incluindo fenobarbital, teofilina, carbamazepina e dapsona. Alcalinização urinária com bicarbonato de sódio aumenta a excreção urinária de ácidos fracos, como salicilatos e fenobarbital, ao reter o medicamento ionizado na urina. A hemodiálise remove com eficácia substâncias com baixa ligação às proteínas, pequeno volume de distribuição e solubilidade em água, incluindo lítio, etilenoglicol, metanol e salicilatos. A decisão de utilizar a eliminação melhorada depende da toxina específica, da gravidade do envenenamento e da evolução clínica prevista.
Cuidados de suporte são a base do manejo de intoxicações e são suficientes como único tratamento para a maioria dos casos de intoxicação. Inclui fluidos intravenosos, controle de temperatura, controle de convulsões, correção de anormalidades metabólicas e prevenção de complicações secundárias, como pneumonia aspirativa, rabdomiólise e úlceras de pressão. Em casos graves, pode ser necessário suporte avançado de órgãos, incluindo ventilação mecânica, vasopressores e terapia de substituição renal, por longos períodos até que a toxina seja eliminada e a função do órgão se recupere.
As investigações toxicológicas incluem uma história completa, exame físico focado na identificação de toxicódromos – constelações de sinais e sintomas característicos de classes específicas de intoxicação – e testes laboratoriais. A toxidrome colinérgica se apresenta com salivação, lacrimejamento, micção, defecação, distúrbios gastrointestinais e êmese. A toxidrome anticolinérgica apresenta hipertermia, rubor, pele seca, pupilas dilatadas, retenção urinária e delírio. A toxidrome simpaticomimética apresenta-se com hipertensão, taquicardia, hipertermia, midríase e agitação. A toxidrome opioide é caracterizada por depressão respiratória, miose e depressão do SNC. A triagem toxicológica abrangente pode confirmar o agente suspeito, mas raramente altera o manejo agudo.
Centros de controle de intoxicações servem como recursos essenciais para profissionais de saúde e para o público, fornecendo acesso 24 horas por dia a conhecimentos especializados em toxicologia. Estes centros melhoram os resultados dos pacientes, reduzem a utilização desnecessária de cuidados de saúde e desempenham um papel fundamental na vigilância de padrões emergentes de envenenamento e ameaças à saúde pública. Os médicos que cuidam de pacientes envenenados devem entrar em contato com o centro regional de controle de intoxicações no início do tratamento para obter orientação sobre decisões específicas de manejo.