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Anomalias Congênitas e Teratologia

Anomalias congênitas (defeitos de nascença) afetam aproximadamente 3-5% dos nascidos vivos e são uma das principais causas de mortalidade infantil. Elas resultam de anormalidades genéticas, exposições ambientais (teratógenos), disrupções mecânicas ou erros espontâneos na embriogênese. Compreender a base histológica dessas anomalias é essencial para o diagnóstico, aconselhamento de risco de recorrência e prevenção.

Classificação das Anomalias Congênitas

Malformações — defeitos estruturais primários resultantes de desenvolvimento intrinsecamente anormal. Exemplos: fenda labial, defeitos do tubo neural, doença cardíaca congênita. As malformações ocorrem durante a embriogênese (semanas 3-8) quando os órgãos estão se formando.

Deformações — alterações secundárias de estruturas normalmente formadas por forças mecânicas. Exemplos: pé torto por oligoidrâmnio, plagiocefalia por restrição uterina. As deformações ocorrem durante o período fetal.

Disrupções — destruição de tecido previamente normal por agentes externos. Exemplos: síndrome da banda amniótica (bandas amnióticas constringindo partes fetais), disrupções vasculares (atresia intestinal por isquemia mesentérica). As disrupções podem ocorrer em qualquer momento durante o desenvolvimento.

Displasias — organização anormal de células em tecidos. Exemplos: displasias esqueléticas (acondroplasia), displasia renal cística. As displasias resultam de mutações genéticas em genes que controlam o padrão tecidual.

Causas Genéticas

Anormalidades cromossômicas — trissomia 21 (Síndrome de Down — 47,XX,+21: defeitos cardíacos, atresia duodenal, doença de Hirschsprung), trissomia 18 (Síndrome de Edwards — pés em cadeira de balanço, mãos fechadas, defeitos cardíacos), trissomia 13 (Síndrome de Patau — holoprosencefalia, polidactilia, fenda labial/palatina), Síndrome de Turner (45,X — pescoço alado, coarctação da aorta, disgenesia gonadal). O exame histológico de tecido de aborto ou natimorto pode identificar características características.

Distúrbios monogênicos — mutações em genes do desenvolvimento causam síndromes de malformação específicas. Exemplos: mutações SOX2 (anoftalmia, microftalmia), mutações NKX2.1 (síndrome cérebro-tireoide-pulmão), mutações PAX6 (aniridia, cataratas). Mutações do receptor do fator de crescimento de fibroblastos (FGFR) causam síndromes de craniossinostose (Crouzon, Apert, Pfeiffer).

Variantes de número de cópias (CNVs) — microdeleções e microduplicações detectadas por microarray cromossômico. Exemplos: deleção 22q11.2 (Síndrome de DiGeorge — aplasia tímica, defeitos cardíacos, fenda palatina), deleção 7q11.23 (Síndrome de Williams — arteriopatia por elastina, deficiência intelectual), deleção 15q11.2-q13 (Síndrome de Angelman, Síndrome de Prader-Willi).

Teratógenos

Teratógenos são agentes ambientais que causam anomalias congênitas. O efeito depende da dose, momento da exposição (período crítico = organogênese, semanas 3-8) e suscetibilidade genética. Os principais teratógenos incluem:

Álcool — espectro de distúrbios alcoólicos fetais: microcefalia, filtro liso, borda vermelha fina do lábio, fissuras palpebrais pequenas, deficiência intelectual. A histologia mostra espessura cortical reduzida e defeitos de migração neuronal.

Ácido valproico — defeitos do tubo neural (espinha bífida), hipospadia, fenda palatina, defeitos do septo atrial, atraso do desenvolvimento, transtorno do espectro autista. O risco é dose-dependente e maior com politerapia.

Retinoides (isotretinoína) — defeitos do SNC (hidrocefalia), microtia/anotia, defeitos cardíacos conotroncais, hipoplasia tímica. Os retinoides são teratógenos potentes que perturbam o desenvolvimento das células da crista neural.

Rubéola — síndrome da rubéola congênita: cataratas, defeitos cardíacos (persistência do canal arterial, estenose da artéria pulmonar), perda auditiva neurossensorial, microcefalia. A histologia mostra inflamação crônica e dano vascular em órgãos afetados.

Citomegalovírus (CMV) — a infecção congênita mais comum. A histologia de tecidos infectados mostra células aumentadas com inclusões intranucleares em “olho de coruja”. Sequelas incluem microcefalia, ventriculomegalia, calcificações periventriculares e perda auditiva neurossensorial.

Avaliação Histológica de Tecido de Aborto e Natimorto

A avaliação de tecido de perda gestacional requer exame sistemático. Para abortos espontâneos, o tecido é examinado quanto a: saco gestacional e saco vitelino, polo embrionário (se presente), morfologia vilositária (alteração hidrópica sugestiva de aneuploidia) e sítio de implantação. Produtos da concepção (POC) — confirmação histológica de gravidez intrauterina e identificação de anormalidades vilositárias.

Para avaliação de natimorto, recomenda-se autópsia completa com histologia. Os tecidos-chave incluem: cérebro (malformações, hemorragia, lesão hipóxico-isquêmica), coração (anomalias estruturais), pulmões (maturidade pulmonar, aspiração de mecônio), fígado (armazenamento de ferro — hemossiderose sugere hipóxia crônica) e placenta (infecção, trombose, má-perfusão). Cariótipo ou microarray cromossômico de pele, pulmão ou tecido placentário identifica causas genéticas.

Risco de Recorrência e Aconselhamento

O risco de recorrência para a maioria das malformações isoladas é de 2-5%. Para síndromes genéticas, o risco de recorrência depende do padrão de herança: autossômico dominante (50% se um dos pais for afetado), autossômico recessivo (25%), ligado ao X (50% dos filhos do sexo masculino de mães portadoras). Anomalias induzidas por teratógenos não recorrem a menos que haja reexposição. O exame histopatológico dos tecidos afetados, combinado com testes genéticos, fornece diagnóstico preciso para aconselhamento de risco de recorrência.