A placenta é a interface entre mãe e feto, responsável pelas trocas gasosas, transporte de nutrientes, produção hormonal e modulação imune. O exame histológico da placenta é essencial para compreender as complicações da gravidez e os resultados fetais.
Exame Macroscópico
A placenta é examinada fresca ou fixada. A avaliação macroscópica inclui: peso (placenta a termo normal: 450-600 g), forma (redonda/oval, lobos acessórios), inserção do cordão (central, excêntrica, marginal, velamentosa — inserção velamentosa carrega risco de vasa prévia), comprimento do cordão (normal 40-70 cm; cordões anormalmente curtos ou longos estão associados a complicações). Superfície materna — completeza da separação decidual, hematomas retroplacentários. Superfície fetal — transparência do âmnio, coloração por mecônio (descoloração verde indica sofrimento fetal). A placenta é seccionada em intervalos de 1-2 cm; seções representativas são retiradas do centro, margem, cordão e membranas.
Histologia Placentária Normal a Termo
As vilosidades coriônicas são as unidades funcionais. As vilosidades a termo são vilosidades terminais — estruturas pequenas e ramificadas com capilares abundantes, membranas vasculosinciciais finas (VSM — a fusão do trofoblasto e endotélio capilar para trocas gasosas) e nós sinciciais (agregados de núcleos de sinciciotrofoblasto). O espaço interviloso contém sangue materno. O trofoblasto tem duas camadas: sinciciotrofoblasto (externa, multinucleada, contínua — local da produção hormonal e transporte de nutrientes) e citotrofoblasto (interna, descontínua a termo — camada de células-tronco). O estroma vilositário contém capilares fetais, células de Hofbauer (macrófagos fetais) e fibroblastos.
O cordão umbilical contém duas artérias e uma veia (três vasos) embebidos em geleia de Wharton (tecido conjuntivo mucoide rico em proteoglicanos). Artéria umbilical única ocorre em 0,5-1% dos partos e está associada a anomalias congênitas.
Maturação Vilositária
A maturação vilositária é avaliada em relação à idade gestacional. Placenta pré-termo — vilosidades maiores e edematosas com citotrofoblasto proeminente e menos nós sinciciais. Placenta a termo — vilosidades menores e mais ramificadas com VSM fina e nós sinciciais abundantes. Placenta pós-termo — aumento de nós sinciciais, aglutinação vilositária (agrupamento) e deposição de fibrinoides. Maturação acelerada (vilosidades pequenas e hipermaduras para a idade gestacional) está associada à má-perfusão vascular materna (pré-eclâmpsia, CIUR). Maturação retardada (persistência de vilosidades de aparência imatura) está associada a anomalias fetais e alguns distúrbios metabólicos.
Patologia Placentária
Má-perfusão vascular materna (MVM) — lesões resultantes de remodelação defeituosa das artérias espiraladas: arteriopatia decidual (aterose, necrose fibrinóide), infarto placentário (necrose isquêmica das vilosidades) e hipoplasia vilositária distal (vilosidades terminais escassas e finas). A MVM está associada a pré-eclâmpsia, restrição de crescimento intrauterino (RCIU) e parto pré-termo.
Má-perfusão vascular fetal (FVM) — lesões por obstrução circulatória fetal: vilosidades avasculares (perda de capilares fetais), cariorrexe estromal-vascular vilositária (detritos nucleares no estroma vilositário) e oclusão trombótica de vasos fetais. A FVM está associada a trombofilia fetal, diabetes e obstrução do cordão umbilical.
Corioamnionite aguda — resposta inflamatória materna à infecção ascendente: neutrófilos no córion e âmnio, progredindo para funisite (neutrófilos nos vasos do cordão umbilical). Associada a trabalho de parto pré-termo, ruptura prematura de membranas e sepse neonatal.
Vilosite crônica — infiltração linfocítica das vilosidades, frequentemente devido a causas infecciosas (CMV, toxoplasma, sífilis, rubéola, HSV, Zika) ou imunológicas (vilosite crônica de etiologia desconhecida — CVUE). A CVUE está associada a RCIU e pode recorrer em gestações subsequentes.
Exame Placentário em Circunstâncias Especiais
Placentas gemelares — a corionicidade determina o risco: monocoriônica (uma placenta, um córion) tem taxas de complicação mais altas que dicoriônica (duas placentas ou uma placenta fundida com dois córions). A síndrome de transfusão feto-fetal ocorre apenas em placentas monocoriônicas.
Gravidez molar — mola hidatiforme completa mostra vilosidades inchadas e avasculares com hiperplasia trofoblástica (46,XX, todo paterno). Mola hidatiforme parcial mostra inchaço vilositário focal com bordas scallopadas e inclusões trofoblásticas (69,XXX ou 69,XXY). A IHQ para p57 (gene de imprinting paterno) é negativa na mola completa, positiva na mola parcial e placenta normal.
Garantia de Qualidade
O exame placentário deve ser realizado para todas as gestações anormais. Modelos de laudo padronizados (Consenso do Grupo de Trabalho de Placenta de Amsterdã) garantem completeza. Os elementos-chave incluem: descrição macroscópica, descrição microscópica da maturação vilositária, patologia vascular materna, patologia vascular fetal, inflamação e diagnósticos específicos. A garantia de qualidade inclui correlação com resultados clínicos e revisão regular dos critérios diagnósticos.