A neurohistologia é o estudo da anatomia microscópica do sistema nervoso — cérebro, medula espinhal, nervos periféricos e órgãos sensoriais. O tecido nervoso apresenta desafios únicos para a histopatologia devido ao seu alto teor lipídico, citoarquitetura complexa e vulnerabilidade seletiva de diferentes tipos celulares à doença.
Organização do Sistema Nervoso
O sistema nervoso central (SNC) — cérebro e medula espinhal — consiste em substância cinzenta (corpos celulares neuronais, dendritos, sinapses, células gliais) e substância branca (axônios mielinizados e oligodendrócitos). O sistema nervoso periférico (SNP) compreende nervos cranianos, nervos espinhais e gânglios periféricos, com células de Schwann substituindo os oligodendrócitos como células mielinizantes.
Neurônios são as unidades funcionais — células grandes com arbóreos dendríticos especializados e longos axônios. Seu tamanho, forma e conteúdo de neurotransmissores variam por região: neurônios piramidais (córtex cerebral), células de Purkinje (cerebelo), neurônios motores (corno anterior da medula espinhal) e neurônios sensoriais (gânglios da raiz dorsal). Células gliais superam os neurônios em 10:1 e incluem: astrócitos (suporte, metabolismo do glutamato, barreira hematoencefálica — GFAP-positivos), oligodendrócitos (produção de mielina no SNC — Olig2-positivos), micróglia (células imunes residentes — Iba1, CD68-positivas) e células ependimárias (revestindo os ventrículos).
Manuseio e Fixação do Tecido
O tecido cerebral é extremamente mole e deve ser adequadamente fixado antes do corte. A fixação do cérebro inteiro requer 7-14 dias em NBF a 10%. O corte coronal do cérebro, corte transversal do tronco encefálico e medula espinhal e corte sagital do cerebelo são padrão. Espécimes de biópsia (biópsias cerebrais estereotáxicas) são pequenos (núcleos de 1-2 mm) e requerem manuseio cuidadoso — frequentemente envoltos em papel de lente antes do processamento para evitar perda de fragmentos.
Fixadores especiais para neurohistologia incluem solução de Bouin (hipófise e regiões cerebrais relacionadas a endócrinos), glutaraldeído (para microscopia eletrônica de nervo e músculo) e formalina tamponada (rotina). O processamento em parafina é padrão para neuropatologia diagnóstica; seções congeladas são usadas para consulta intraoperatória (preparações de esfregaço ou seções de criostato).
Colorações Neurohistológicas Padrão
H&E é a coloração primária para detalhe celular — substância de Nissl neuronal (RE rugoso — grânulos basofílicos), morfologia nuclear e identificação de células gliais. Luxol Fast Blue (LFB) cora mielina em azul-esverdeado e é a coloração padrão para avaliar mielinização e desmielinização. LFB com contracoloração H&E (LFB-HE) ou LFB-PAS demonstra tanto mielina quanto morfologia celular em uma única seção. LFB com Violeta de Cresila (LFB-CV) — a combinação “luxol fast blue-violeta de cresila” cora mielina em azul e neurônios em violeta, usada para estudos citoarquiteturais.
Coloração de prata de Bielschowsky impregna neurofibrilas e placas neuríticas, demonstrando novelos neurofibrilares (doença de Alzheimer), placas neuríticas e corpos de Pick (doença de Pick). Coloração de prata de Bodian é semelhante, visualizando axônios e neurofibrilas.
Identificação de Células Gliais por IHQ
A IHQ substituiu amplamente as colorações histoquímicas tradicionais para identificação de tipos celulares em neuropatologia. GFAP (proteína ácida fibrilar glial) — o marcador definidor de astrócitos e tumores astrocíticos (astrocitoma, glioblastoma). Olig2 — marcador nuclear de oligodendrócitos e tumores oligodendrogliais. Iba1 e CD68 — marcadores de micróglia/macrófagos, regulados positivamente em inflamação e neurodegeneração. NeuN — proteína nuclear neuronal, identifica neurônios maduros e é perdida em muitas doenças neurodegenerativas. Neurofilamento (NF) — marcador axonal, demonstra densidade axonal, esferoides e torpedos. Sinaptofisina — proteína de vesícula sináptica, identifica densidade sináptica em condições neurodegenerativas.
Regiões Especiais
Hipocampo — a região CA1 é seletivamente vulnerável à anóxia e isquemia. A esclerose hipocampal está associada à epilepsia do lobo temporal. Substância negra — neurônios pigmentados que degeneram na doença de Parkinson; o pigmento neuromelanina é visível na H&E sem colorações especiais. Cerebelo — células de Purkinje são seletivamente vulneráveis a hipóxia, toxinas e síndromes paraneoplásicas. Medula espinhal — perda de neurônios motores na esclerose lateral amiotrófica (ELA).
Artefatos
Neurônios escuros — neurônios encolhidos e hipereosinofílicos resultantes de fixação retardada ou manuseio traumático de cérebro não fixado. Podem ser confundidos com lesão isquêmica ou hipóxica. Artefato de redemoinho — de disrupção tecidual traumática durante biópsia estereotáxica. Artefato de cautério — de eletrocautério usado durante ressecção cirúrgica, causando necrose coagulativa nas bordas do tecido. Artefato de congelamento — de crioproteção inadequada em seções congeladas.