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Processamento de Biópsias Musculares e Nervosas

Biópsias musculares e nervosas são ferramentas diagnósticas essenciais para doenças neuromusculares. Diferentemente dos espécimes de patologia cirúrgica de rotina, eles requerem manuseio especializado — o tecido fresco deve ser processado imediatamente para seções congeladas e enzimohistoquímica, e amostras paralelas devem ser preparadas para inclusão em parafina e microscopia eletrônica.

Biópsia Muscular: Indicações e Seleção

A biópsia muscular é indicada para: fraqueza inexplicada (proximal > distal), creatina quinase (CK) elevada, achados EMG miopáticos ou neurogênicos, suspeita de miopatia inflamatória (dermatomiosite, polimiosite, miosite por corpos de inclusão), suspeita de distrofia muscular, suspeita de miopatia metabólica (mitocondrial, armazenamento de glicogênio, armazenamento de lipídios) e miopatia congênita.

O sítio da biópsia é selecionado com base no envolvimento clínico e achados de EMG. Vasto lateral (quadríceps) é o sítio mais comum — facilmente acessível, representativo do músculo proximal e bem caracterizado para valores normais. Deltoide é usado para fraqueza proximal de membros superiores. Bíceps braquial é uma alternativa. A biópsia deve ser retirada de um músculo moderadamente afetado — músculo em estágio final (atrofia grave, substituição por gordura) fornece pouca informação diagnóstica. O sítio não deve ter sofrido agulhamento de EMG recente (artefato de trauma por agulha).

Protocolo de Processamento de Biópsia Muscular

O espécime é recebido fresco, mantido úmido com gaze umedecida em soro fisiológico. Sob microscópio de dissecação, as fibras musculares são orientadas longitudinalmente. O espécime é dividido: seção congelada (a maior porção, 5-8 mm × 5 mm) — montada em um disco de cortiça em composto OCT, orientada para corte transversal e congelada rapidamente em isopentano resfriado a -160°C em nitrogênio líquido. Parafina (um pedaço de 3-5 mm) — fixado em formalina para histologia de rotina e IHQ. Microscopia eletrônica (um pedaço de 1-2 mm, orientado longitudinalmente) — fixado em glutaraldeído a 2,5%. Bioquímica (opcional, 10-20 mg) — congelado rapidamente para análise enzimática ou teste genético.

O bloco congelado é seccionado a 8-10 µm em um criostato a -25°C. Um painel padrão de seção congelada inclui: H&E, tricrômio de Gomori modificado, ATPase em pH 9,4, 4,6 e 4,3, NADH-TR, COX, SDH, fosfatase ácida, Oil Red O (lipídio neutro), PAS (glicogênio) e esterase não específica.

Enzimohistoquímica em Seção Congelada

As reações de ATPase em diferentes níveis de pH devem ser realizadas em seções congeladas não fixadas porque a fixação inativa a ATPase da miosina. As reações são: pré-incubação em pH 4,3 (tipo I escuro, tipo II claro), pH 4,6 (tipo I escuro, IIA claro, IIB intermediário) e pH 9,4 (tipo I claro, tipo II escuro). Elas diferenciam fibras tipo I (contração lenta, oxidativa) e tipo II (contração rápida, glicolítica) e seus subtipos. A distribuição normal é um padrão de mosaico com predominância de tipo I em músculos posturais e predominância de tipo II em músculos fásicos.

NADH-TR, COX e SDH devem ser realizadas em seções congeladas dentro de 24-48 horas após o corte — a atividade enzimática declina com o armazenamento. Controles positivos (músculo normal conhecido) são processados com cada lote.

Seções de Parafina e IHQ

O músculo fixado em formalina e incluído em parafina é seccionado a 4-5 µm e corado com H&E, LFB-PAS e Congo Red. IHQ para distrofina (domínio bastão, N-terminal, C-terminal e controles de queda) diagnostica distrofia muscular de Duchenne/Becker. Sarcoglicanas (alfa, beta, gama, delta) — mutações causam distrofia muscular de cinturas. Disferlina — mutações causam miopatia de Miyoshi e LGMD2B. IHQ para MHC classe I — regulada positivamente em miopatias inflamatórias (dermatomiosite, polimiosite). IHQ para MxA — regulada positivamente por interferon tipo I na dermatomiosite (padrão perifascicular).

Biópsia Nervosa

A biópsia do nervo sural é a biópsia nervosa mais comum — o nervo sural é um nervo puramente sensorial, e sua remoção causa apenas perda sensorial menor no pé lateral. As indicações incluem: suspeita de neuropatia vasculítica, neuropatia hereditária (doença de Charcot-Marie-Tooth), neuropatia amiloide, neuropatia inflamatória (sarcoide, PIDC) e doenças de armazenamento.

O espécime (2-3 cm) é processado para: parafina — H&E, LFB-PAS, Congo Red, IHQ (neurofilamento, MBP, CD68, CD3, CD20). Congelado — ATPase (para tipo de fibra), NADH-TR, fosfatase ácida. Fibras isoladas — 30-50 fibras individuais separadas e montadas para avaliar degeneração axonal (ovoides de mielina) e desmielinização segmentar (bainhas de mielina finas ou ausentes). Microscopia eletrônica — quantifica densidade de fibras mielinizadas, perda de fibras amielínicas e identifica anormalidades específicas (tomácula na neuropatia hereditária com paralisias por pressão, bulbos de cebola em neuropatias desmielinizantes, atrofia axonal).

Controle de Qualidade

Todas as técnicas de biópsia neuromuscular requerem controle de qualidade rigoroso. Seções congeladas devem ser avaliadas quanto a artefato de congelamento (vacuolação por cristais de gelo — indica congelamento lento; o tecido deve ser transparente quando congelado). As reações enzimohistoquímicas devem mostrar padrões esperados de tipos de fibras nos controles positivos. A IHQ para distrofina requer controles normais e deficientes em distrofina conhecidos. A participação em programas de EQA neuromusculares é recomendada para laboratórios que realizam essas técnicas especializadas.