A histopatologia é o exame microscópico de tecido doente. Antes que um patologista possa avaliar um espécime, o tecido deve passar por uma série de etapas preparatórias que preservam a estrutura, endurecem a amostra para corte e produzem seções finas o suficiente para transmitir luz. A qualidade do diagnóstico final depende diretamente da qualidade do processamento e corte.
Fixação
A fixação preserva a arquitetura do tecido reticulando proteínas e inativando enzimas degradativas. O fixador mais comum é a formalina tamponada neutra a 10% (NBF), uma solução de formaldeído a 3,7% que forma pontes de metileno entre grupos amino, estabilizando a estrutura proteica sem encolhimento excessivo. O tempo de fixação depende do tamanho do tecido — uma biópsia típica requer 6-24 horas, enquanto espécimes maiores podem necessitar de 24-48 horas. A subfixação deixa o tecido vulnerável à autólise e produz seções mal coradas; a superfixação causa reticulação excessiva que mascara antígenos para imuno-histoquímica. Outros fixadores incluem glutaraldeído (para microscopia eletrônica), solução de Bouin (para tecidos endócrinos) e fixadores à base de álcool (para processamento rápido em seções congeladas).
Processamento
Após a fixação, o tecido deve ser infiltrado com um meio de suporte sólido — tipicamente parafina — antes do corte. O processamento ocorre em um processador automático de tecido ao longo de 12-24 horas através de estágios sequenciais:
Desidratação remove a água do tecido usando etanóis graduados (70%, 80%, 95%, 100%) para evitar distorção. A desidratação incompleta impede a penetração da parafina e causa artefatos de corte.
Clarificação substitui o etanol por um solvente orgânico miscível tanto com álcool quanto com parafina. O xileno é o agente clarificador mais comum; ele torna o tecido translúcido e o prepara para a infiltração.
Infiltração substitui o agente clarificador por parafina fundida em estufa a vácuo, garantindo penetração completa em todo o bloco de tecido. O vácuo remove bolhas de ar que de outra forma causariam buracos nas seções.
Inclusão
A inclusão orienta o tecido infiltrado em um bloco de parafina para corte. O tecido é colocado em um molde metálico, coberto com parafina fundida e resfriado em uma placa fria até solidificar. A orientação correta é crítica: a maioria das biópsias é incluída para apresentar a área transversal máxima à lâmina do micrótomo. Espécimes pequenos ou fragmentados (biópsias por agulha, blocos celulares de citologia) são frequentemente envoltos em papel de lente ou incluídos em ágar antes do processamento para evitar perda.
Microtomia
O corte é realizado em um micrótomo rotativo que avança o bloco de parafina em incrementos precisos — tipicamente 3-5 µm para histologia de rotina. A fita de seções flutua em um banho-maria aquecido (40-45°C) para achatar rugas, depois é coletada em lâminas de vidro. Fatores que afetam a qualidade do corte incluem condição da lâmina (lâminas descartáveis são trocadas regularmente), temperatura do bloco (resfriar blocos no gelo melhora o corte de tecidos adiposos) e velocidade de corte (golpes lentos e uniformes produzem as melhores fitas).
Após a montagem, as seções são secas em uma placa quente ou estufa para garantir adesão. A coloração subsequente (mais comumente H&E — hematoxilina e eosina) revela detalhes nucleares e citoplasmáticos para avaliação microscópica.
Artefatos Comuns
Marcas de faca aparecem como linhas paralelas de entalhes na lâmina do micrótomo; podem ser minimizadas usando bordas de lâmina frescas para tecidos duros.
Compressão ocorre quando o bloco está muito quente ou a lâmina está cega, fazendo com que a seção seja mais curta que a face do bloco. Resfriar o bloco ou substituir a lâmina resolve isso.
Chatter (bandas alternadas grossas e finas) resulta de vibração no micrótomo ou um bloco solto — o bloco deve estar firmemente preso no mandril.
Dobras e rugas na seção são causadas por flutuação inadequada no banho-maria ou calor excessivo; adicionar uma gota de detergente à água reduz a tensão superficial.
Artefatos flutuantes são fragmentos de tecido de outros casos que contaminam o banho-maria — filtrar o banho-maria e trocá-lo diariamente previne contaminação cruzada.
Bolhas surgem de infiltração incompleta de parafina durante o processamento, deixando ar preso no tecido. O reprocessamento a vácuo pode ser necessário.
Controle de Qualidade
Cada lâmina corada deve ser verificada quanto à espessura da seção (uniforme 3-5 µm), ausência de dobras e rasgos, representação completa do tecido e rotulagem correta. Seções inadequadas devem ser re-cortadas antes que o patologista revise o caso. O processamento e corte adequados são pré-requisitos para o diagnóstico histopatológico preciso e para técnicas subsequentes como imuno-histoquímica, hibridização in situ e patologia digital.