A citologia por punção aspirativa por agulha fina (PAAF) é uma técnica diagnóstica que usa uma agulha de calibre fino para aspirar células de lesões palpáveis ou detectadas por imagem. Ela fornece um diagnóstico definitivo em minutos quando a avaliação rápida no local (ROSE) está disponível, e oferece uma alternativa mais segura, rápida e menos cara à biópsia por agulha grossa para muitas indicações.
Técnica
PAAF guiada por palpação — a lesão é imobilizada com uma mão enquanto a outra mão avança a agulha. A agulha é movida para frente e para trás dentro da lesão (10-20 passagens rápidas) enquanto mantém pressão negativa com uma seringa (10-20 mL). A pressão é liberada antes de retirar a agulha para evitar aspiração para a seringa. O conteúdo da agulha é expelido em lâminas reconectando a seringa cheia de ar. Para lesões vasculares, a PAAF sem sucção (técnica capilar ou “não aspirativa”) reduz a diluição por sangue.
PAAF guiada por imagem — ultrassom, TC ou ultrassom endoscópico (EUS) guiam lesões profundas (pâncreas, fígado, pulmão, mediastino, retroperitônio). A visualização em tempo real garante o posicionamento da agulha dentro da lesão, evita áreas necróticas e evita vasos adjacentes.
Avaliação Rápida no Local (ROSE)
A ROSE é realizada por um citotecnologista ou patologista na sala de procedimento. Uma lâmina é corada imediatamente (Diff-Quik ou Azul de Toluidina) e examinada ao microscópio. A ROSE confirma que o espécime é adequado (contém células diagnósticas da lesão alvo), tria o espécime para estudos auxiliares (bloco celular para IHQ, cultura, citometria de fluxo) e fornece um diagnóstico preliminar que orienta decisões clínicas imediatas. A ROSE reduz as taxas de inadequação de 15-25% para <5%, evita procedimentos repetidos e economiza custos de saúde.
Aplicações por Órgão
PAAF de tireoide é o teste padrão para avaliar nódulos tireoidianos. O Sistema Bethesda para Citologia Tireoidiana categoriza os resultados em seis categorias diagnósticas com risco de malignidade implícito: não diagnóstica (5-10%), benigna (0-3%), atipia de significado indeterminado (10-30%), neoplasia folicular (25-40%), suspeita para malignidade (50-75%) e maligna (97-99%). Testes moleculares (ThyroSeq, Afirma) refinam o risco em categorias indeterminadas.
PAAF de mama avalia lesões mamárias palpáveis e detectadas por imagem. O teste triplo combina exame clínico, imagem (mamografia, ultrassom) e PAAF para uma acurácia diagnóstica próxima de 100% quando todos os três são concordantes. A PAAF também é usada para estadiamento de linfonodos axilares em pacientes com câncer de mama.
PAAF de linfonodo diagnostica hiperplasia reativa, inflamação granulomatosa (tuberculose, sarcoidose), infecções e malignidade metastática. A citometria de fluxo do material de PAAF diagnostica e classifica linfomas não Hodgkin. A PAAF é a modalidade diagnóstica de primeira linha para suspeita de linfoma em linfonodos acessíveis.
PAAF de glândula salivar distingue lesões neoplásicas de não neoplásicas e neoplasias benignas (adenoma pleomórfico, tumor de Warthin) de malignas (carcinoma mucoepidermoide, carcinoma adenóide cístico). A especificidade excede 95% para malignidade.
PAAF de pâncreas (guiada por EUS) diagnostica adenocarcinoma ductal pancreático, tumores neuroendócrinos e lesões císticas (com análise de líquido do cisto para CEA e amilase). A sensibilidade para adenocarcinoma pancreático é de 80-95% com ROSE.
PAAF de pulmão — PAAF guiada por ultrassom endobrônquico (EBUS) de linfonodos mediastinais e hilares diagnostica e estadia o câncer de pulmão. A PAAF transbrônquica alveja nódulos pulmonares periféricos. A IHQ em blocos celulares determina o subtipo tumoral (adenocarcinoma vs. escamoso vs. pequenas células) e marcadores moleculares (TTF1, p40, PD-L1).
Desafios Diagnósticos
PAAF falso-negativa resulta de erro de amostragem (agulha erra a lesão), tumores necróticos, tumores desmoplásicos que produzem poucas células e lesões pequenas (<1 cm). A reaspiração ou biópsia por agulha grossa resolve a maioria dos falsos negativos. PAAF falso-positiva é rara mas pode ocorrer pela interpretação de atipia reativa ou alterações de reparo como malignas, ou por contaminação com células normais. A correlação com achados clínicos e de imagem é essencial.
Complicações
As complicações são raras (<1%). Sangramento e hematoma são os mais comuns, manejados por pressão prolongada. O pneumotórax complica 1-5% das PAAFs pulmonares; a maioria é manejada conservativeamente. Infecção, disseminação pelo trajeto da agulha (extremamente rara, <0,01%) e reações vasovagais são relatadas. A PAAF de tumores do corpo carotídeo e feocromocitoma carrega risco de crise hipertensiva.