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Citologia Não Ginecológica

A citologia não ginecológica abrange todos os espécimes citológicos diferentes dos exames de Pap cervicais. É uma área em rápido crescimento impulsionada por técnicas de amostragem minimamente invasivas, preparações em base líquida e a necessidade crescente de testes moleculares em amostras pequenas.

Líquidos de Efusão

Efusões pleural, peritoneal (ascítica) e pericárdica são os espécimes citológicos não ginecológicos mais comuns. O líquido (50-500 mL) é coletado por toracocentese, paracentese ou pericardiocentese e enviado ao laboratório para contagem celular, bioquímica, microbiologia e citologia. A preparação citológica inclui centrifugação, preparação de esfregaço e bloco celular para IHQ.

Células mesoteliais reativas são o achado mais comum — apresentam leve atipia, podendo ser confundidas com malignidade por observadores inexperientes. Efusões malignas resultam mais comumente de carcinoma metastático (pulmão, mama, ovário, estômago, pâncreas) ou linfoma. O diagnóstico requer identificação definitiva de células malignas, que podem ser isoladas ou em agrupamentos, com aumento nuclear, alta relação N/C, contornos nucleares irregulares e nucléolos proeminentes. A IHQ em blocos celulares identifica o sítio primário: calretinina e WT1 para mesotelioma; MOC-31, Ber-EP4 e Claudina-4 para carcinoma; mamaglobina e GATA3 para mama; PAX8 para ovário.

Mesotelioma — células mesoteliais malignas mostram agrupamentos celulares densos e “ocupados” com bordas escallopadas, pleomorfismo nuclear e uma população de duas células (epitelioide e sarcomatoide). IHQ: calretinina+, WT1+, D2-40+, claudina-4-.

Citologia Urinária

A citologia urinária rastreia carcinoma uroterial em pacientes com hematúria, sintomas urinários irritativos ou histórico de câncer de bexiga. Urina eliminada (primeira amostra matinal ou aleatória) é a amostra padrão; urina cateterizada e lavados vesicais são usados para indicações específicas.

Carcinoma uroterial de alto grau — células com alta relação N/C, membranas nucleares irregulares, hipercromasia e cromatina grosseira. O pleomorfismo nuclear é acentuado. Necrose e figuras de mitose podem estar presentes. A sensibilidade para tumores de alto grau é de 70-90%; a sensibilidade para tumores de baixo grau é de apenas 20-40%. O Sistema Paris para Laudo de Citologia Urinária padroniza a terminologia em sete categorias (não diagnóstica, negativa, atípica, suspeita, carcinoma uroterial de alto grau, neoplasia uroterial de baixo grau, outras malignidades). Carcinoma uroterial de alto grau requer critérios citológicos definitivos; a categoria “atípica” deve ser usada com moderação (<10% dos casos).

Citologia Respiratória

Citologia de escarro examina escarro expectorado espontaneamente ou induzido para células malignas. A sensibilidade é de 40-70% para tumores pulmonares centrais (carcinoma de células escamosas, pequenas células) mas <20% para adenocarcinomas periféricos. Três amostras matinais são recomendadas.

Lavado broncoalveolar (LBA) — soro fisiológico é instilado e aspirado de um segmento ou subsegmento brônquico. A citologia do LBA diagnostica infecções (Pneumocystis jirovecii, CMV, fungos), doenças pulmonares difusas (sarcoidose, pneumonite de hipersensibilidade, proteinose alveolar pulmonar — material eosinofílico característico) e malignidade.

Escovação e lavagem endobrônquica coletam células de lesões endobrônquicas visíveis. A sensibilidade para tumores centrais é de 70-85%.

Citologia de Líquido Cefalorraquidiano (LCR)

A citologia do LCR diagnostica carcinomatose leptomeníngea, linfoma primário do SNC e infecções. O LCR (10-20 mL) é processado por citocentrifugação ou ThinPrep. Metástase leptomeníngea — células malignas de tumores sólidos (mama, pulmão, melanoma) ou linfoma no LCR. A sensibilidade de um único espécime é de 50-60%; três espécimes consecutivos aumentam a sensibilidade para 85-90%. Linfoma primário do SNC — células grandes de linfoma B com nucléolos proeminentes, frequentemente com um fundo de linfócitos reativos.

Citologia Gastrointestinal

Escovação de ducto biliar — escovações de colangiopancreatografia retrógrada endoscópica (CPRE) de estenoses biliares diagnosticam colangiocarcinoma. A sensibilidade é de 40-70%; a especificidade excede 95%. A FISH auxiliar (conjunto de sondas UroVysion) aumenta a sensibilidade. Líquido de cisto pancreático — nível de CEA (>192 ng/mL) e citologia diagnosticam neoplasias císticas mucinosas. Escovações esofágicas e gástricas — agora amplamente substituídas por biópsia endoscópica.

Considerações Analíticas

A citologia não ginecológica é mais desafiadora que a ginecológica porque os espécimes são mais variáveis, a celularidade é menor e a atipia reativa (de inflamação, quimioterapia, radiação) mimetiza malignidade. A correlação clínica é essencial — o citopatologista deve conhecer a idade, sexo, apresentação clínica, achados de imagem e terapia prévia do paciente para evitar interpretação falso-positiva. Blocos celulares e IHQ auxiliar são críticos para o diagnóstico definitivo. A citologia em base líquida melhorou a adequação dos espécimes e permitiu testes moleculares a partir dessas amostras.